quem somos

Este é um espaço para pensar sobre trabalho e tempo livre. Esse trabalho que, às vezes, é falta: de oportunidade, de lugar, de garantia, de direito, de sentido. Mas, às vezes, é excesso: de exigência, de responsabilidade, de obrigação, de cobrança. MEI, maker, biscate, freela, profissional liberal, autônomo, informal, empreendedor, quem faz bico para viver: o que tem em comum nisso tudo? Flexível, diriam uns; precário, diriam outros.

Terreno instável e fragmentado demais para servir de base ao que já foi um projeto de prosperidade, abundância, solidariedade, pleno emprego e bem-estar social. O trabalho não é mais aquela categoria privilegiada para a compreensão dos sujeitos políticos. Por isso, não dá para continuar apostando num projeto de futuro e de sociedade centrado nessa figura, cuja transformação se confunde com a própria crise da esquerda – com a tão falada crise da representação.

A figura do empreendedor é sedutora, mesmo com toda a instabilidade que vem junto. Tem algo de autonomia. Por outro lado, nas favelas cariocas, a humanidade da juventude negra sob genocídio é extraída do trabalho. Na mira do fuzil, financiado com dinheiro público, a exclamação cotidiana agoniza: “sou trabalhador!; ele era trabalhador…”. O trabalho ainda é um ativo, o que sobra para reivindicar a vida.

Parece cada vez maior o número de trabalhos que não são reconhecidos como tal. Trabalhos que, acredita-se, devem ser feitos por amor – especialmente por mulheres, negros e negras, imigrantes. O cuidado com os idosos, com as crianças, com a casa, com a alimentação. Tudo isso é trabalho, só que pouco se paga.

O trabalho avança sobre nosso tempo livre, na maior parte das vezes, sem pagar o que deveria. Não sabemos mais quando começamos e quando paramos de trabalhar. A fronteira é cada vez mais confusa. Trabalhamos o tempo todo. Mesmo quando estamos desempregados, mesmo quando não somos remunerados. Trabalhamos nas redes sociais, quando cuidamos da nossa imagem (como “gerir” seu “perfil” para se dar bem numa entrevista de emprego?). Trabalhamos quando nossas relações sociais tornam-se oportunidades para fazer networking. Quando não conhecemos mais pessoas, mas “fazemos contatos”. Trabalhamos no trânsito, quando aproveitamos para usar o Facebook ou o WhatsApp. Trabalhamos quando passamos a viver nossas vidas como quem administra uma empresa, quando medimos a nós mesmos e às pessoas que nos cercam como capital humano: quando tudo se torna uma questão de “agregar valor”.

Não conseguimos mais captar, apreender, medir esse trabalho fluido, subjetivo, afetivo, intenso. Mas sentimos o tempo livre cada vez mais permeado por muitos tipos de trabalho. E se fosse ao contrário? E se o tempo livre tomasse o trabalho? Queremos disputar o tempo livre num mundo porvir.

Bettina Mattar, Ciro Oiticica, Lori Regattieri, Maikel da Silveira, Pedro Mendes, Rafael Rosa, Ricardo Gomes, Tatiana Oliveira, Tatiana Roque, Vítor Mussa