22 segundos, US$ 0,33 centavos

Não dá mais pra pensar o trabalho sem levar em conta as implicações da automação, da robótica e da inteligência artificial nesse universo, sobretudo num contexto de economias globalizadas. No Brasil, muito se tem falado sobre a necessidade de “modernizar” ou “flexibilizar” as leis trabalhistas, para gerar mais empregos e aumentar a competitividade da indústria brasileira. Entretanto, para os nossos reformistas, modernizar muitas vezes significa suprimir direitos trabalhistas para permitir uma exploração cada vez mais intensiva de uma mão-de-obra cada vez mais precarizada. É que a “competitividade” de uma indústria tecnologicamente atrasada num mercado globalizado só pode ser garantida por meio dessa exploração: é preciso que o trabalhador produza cada vez mais, por cada vez menos, num tempo cada vez mais curto. Na indústria têxtil, é muito fácil observar esse movimento, como sugere, por exemplo, um artigo relativamente recente da jornalista Elvira Lobato para a revista Piauí, sobre as chamadas “costureiras de facção”. Ela explica:

“Para os cariocas, facção é sobretudo sinônimo dos comandos que controlam o narcotráfico, o roubo de carga e os presídios. Mas o termo tem também um significado menos conhecido: ele é usado para designar a teia invisível de intermediários (pessoas ou microempresas) da indústria da confecção. As facções contratam costureiras para finalizar as peças de roupas vistas em vitrines famosas e em lojas populares; nas academias de ginástica, nos uniformes de trabalhadores e de estudantes das escolas públicas. A costura é o trabalho menos valorizado na produção da roupa. Os economistas diriam que ela é a “commodity” da indústria da moda”.

“Para uma costureira alcançar a produção diária de cem bolsas imaginada por meu interlocutor e faturar 100 reais, precisaria finalizar uma bolsa a cada 7 minutos e 20 segundos durante 12 horas (considerando-se a costura das bolsas que pagam 1 real). Idas ao banheiro e interrupção para o almoço não estão incluídas no cálculo, o que me leva a concluir que as costureiras de facção têm uma jornada diária comparável à das mulheres durante a Revolução Industrial, no século XIX, quando trabalhavam de 14 a 16 horas por dia”.

Para muita gente, essa é hoje a única opção viável para botar comida na mesa. No contexto em que vivemos, infelizmente, é quase inevitável pensar: é ruim, mas podia ser pior. Podia, não: pode. Pode sobretudo porque, diante dos avanços da automação, essa estratégia de precarizar para competir pode se tornar ineficaz muito mais rápido do que a gente imagina. É isso que indica a notícia abaixo:

“Uma companhia baseada em Atlanta, nos EUA, a Softwear Automation, desenvolveu uma máquina de costura robotizada totalmente automatizada. O robô que atende pelo nome simpático de Sewbot tem uma combinação de câmeras e agulhas que fazem o tracking do tecido antes de iniciar o processo de costura e, com isso, é capaz de confeccionar uma peça com um nível de precisão que excede o do ser humano. E o faz num piscar de olhos: uma camiseta, por exemplo, leva apenas 22 segundos para ser produzida”.

Hoje uma costureira extremamente hábil consegue produzir uma roupa em 7 minutos, como vimos na matéria sobre as facções. Fazer isso em 22 segundos é uma tarefa que supera – e muito – a capacidade humana. É uma tarefa para máquinas como o “simpático” Sewbot, que não apenas produz mais rápido, mas também mais barato.

“Muito em breve, o Sewbot será responsável pela produção de 800.000 camisetas da Adidas por dia. Isso porque a empresa chinesa Tianyuan Garments, que atua na fabricação de camisetas da marca esportiva, assinou um acordo com a Softwear Automation para instalá-lo em 21 de suas linhas de produção, tornando-as totalmente automatizadas até o final de 2018. De acordo com o jornal China Daily, o custo de produção de cada camiseta será de apenas 33 centavos de dólar. ‘Ao redor do mundo, nem mesmo a mão-de-obra mais barata poderá competir conosco’, comenta Tang Xinhong, CEO da Tianyuan”.

Quando a gente leva em conta esse contexto, parece cada vez mais evidente que a precarização (ou “flexibilização” ou “modernização” das leis trabalhistas) não é nada mais que um paliativo. Não garante nada além de uma sobrevida de “competitividade” para a indústria brasileira. A única forma de se manter competitivo no mercado global hoje é investir em ciência e tecnologia. Essa competitividade da indústria, no entanto, não significa necessariamente mais empregos. Não raro, significa menos. Se quisermos realmente discutir o “país do futuro”, precisamos levar isso tudo (e mais um pouco) em conta. E precisamos urgentemente de novas ideias.

 

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Foto por mali maeder em Pexels.com

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