Vida x Trabalho

O título da matéria do Economist é direto: “O stress que mata trabalhadores americanos”. Apesar dos dados alarmantes sobre o crescimento de doenças que afetam a saúde mental e do aumento exponencial de transtornos psicológicos, o tema ainda é alvo de preconceito e não recebe a devida atenção das empresas, dos governas nem das pessoas. O subtítulo é revelador: “planos de saúde ruins e insegurança no trabalho encurtam vidas”, a hipótese é de Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Negócios de Stanford. Segundo o autor, organizações que pesquisam a relação entre saúde e trabalho descobriram que quase 50% das empresas reconhecem que o stress afeta a produtividade e a qualidade do trabalho de seus colaboradores. No entanto, apenas 5% tomavam alguma medida sobre o assunto. Comparando os dados, o pesquisador avalia que problemas associados ao trabalho seriam responsáveis por aproximadamente 120.00 mortes ao ano nos Estados Unidos enquanto na Europa, apenas a metade desse quantitativo é registrado. Em sua hipótese, uma das razões seria o acesso a serviços de saúde universais.

Dois problemas letais são apontados pela matéria: o excesso de trabalho e o falta de acesso a serviços públicos de saúde.

A cientista política Wendy Brown destaca os efeitos devastadores do neoliberalismo sobre o serviço público em seu livro “Undoing the demos – neoliberalism stealth revolution”. A autora expõe o funcionamento da razão neoliberal, que opera através de saberes e práticas específicos, (como accountability, que entendemos como prestação de contas, governança e benchmarking, que avalia o funcionamento e estratégias das empresas, visando o aumento de sua competitividade no mercado) que são adotados gradativamente pela administração pública. Com isso o modo de gestão empresarial é absorvido e replicado na gestão dos serviços públicos, que tem seus valores e objetivos transfigurados e harmonizados com os valores e objetivos de empresas privadas: redução de custos, eficiência, resultados. Dessa forma a compreensão dos serviços públicos como direitos perde vigor.

Outra estratégia adotada pela razão neoliberal é a transferência de responsabilidades efetuado pelos Governos, que saem da esfera federal para a estadual, e passam para a Municipal que, realoca para as instituições e secretarias de sua esfera. Por fim, são os diretores e administradores locais que recebem a incumbência e, ao se verem sem recursos e ferramentas, repassam para o cidadão, o indivíduo aquela responsabilidade. Esse movimento produz a descrença no funcionalismo público, que é associado serviços de péssima qualidade. Assim é criada a justificativa para privatizações e a mudança da ideia de direitos para serviços.

O indivíduo sendo responsabilizado por sua saúde, segurança e educação e desprovido de proteções sociais, se vê na situação de aceitar qualquer trabalho que lhe garanta alguma renda para pagar por tais serviços. Trabalhos precários, extenuantes, com excessiva carga horária são fatores que contribuem para o aumento do stress.

O filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu livro “A sociedade do cansaço” analisa como o sujeito contemporâneo, empresário de si, interiorizou a exploração através de dispositivos que o tornaram obediente à lógica do desempenho, cujo principal efeito é o adoecimento psíquico. Para o autor, cada momento histórico é caracterizado por determinadas enfermidades, como virais e bacterioses e o século XXI seria marcada pelas doenças neuronais: depressão, ansiedade, hiperatividade, síndrome de Burnout, Transtorno de déficit de atenção entre outros. Para o autor, a violência neuronal pode gerar um infarto psíquico.

Sua hipótese se justifica ao considerar a sociedade atual como sociedade do desempenho. A romantização e elogio da pessoa que vive para o trabalho e que trabalha sem descanso permeia o imaginário popular. “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham” diz um antigo ditado popular que se atualizou com fotos de esportivas nas redes sociais. A pressão pela eficácia na produtividade gera depressivos: a exigência pelo alcança de metas cada vez maiores produz ansiedade e a sensação de fracasso diante da falha. Em suas palavras, “o excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração”.

Nessa realidade neoliberal nossa vida é completamente capturada pelo trabalho, nosso cotidiano é refém da produção. E nosso tempo livre, ainda existe?

Só ele resiste.

R. R. Rosa

link da matéria: https://www.economist.com/business/2018/07/21/the-stress-that-kills-american-workers?fbclid=IwAR2qZzuL9ofVsCtzren5I3yZBb_Xt9FZo3X6EFhGt1Lcvpt9trwRWZO9JtY

imagem: Steve Cutts

 

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