Que impacto o movimento feminista tem nas lutas e na imaginação política da classe trabalhadora?

O texto abaixo foi publicado originalmente pela Revista Crisis, argentina, que transcreveu contribuições de cinco representantes de movimentos sociais daquele país após um debate sobre o tema “O futuro do Trabalho”. Aqui, traduzi apenas a intervenção de Verónica Gago, professa e ativista feminista, que atua junto ao coletivo Ni Una Menos. Para ter acesso à publicação original, clique aqui.

Tradução de Tatiana Oliveira

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Verónica Gago: Eu quero começar, para explicar essa relação com a imaginação política, contando sobre uma atividade que foi feito hoje ao meio-dia, na cidade de Buenos Aires, numa articulação entre as “metrodelegadas” do metrô de Buenos Aires, o coletivo Ni Uma Menos, e a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Livre. O que fizemos hoje foi ocupar todas as linhas de metrô coordenadamente: nós intervimos nos vagões, falamos com as passageiras e os passageiros e cada uma das linhas de metrô instalamos uma linha de agitação social. E eu quero começar com esta cena em particular, que aconteceu e tomou a cidade, porque, com ela, nós levantamos a questão do aborto em termos de autonomia, de disputa trabalhista e de violência econômica, isto é, o que fizemos foi colocar a questão da aborto como algo que está ligado a vários problemas e não simplesmente uma questão de mulheres de classe média, como nos foi dito em um momento.

Daqui, emerge algo que o movimento feminista está propondo desde muito recentemente e com força: Como o feminismo pode ser um movimento popular, e como, para isso, deve ser capaz de vincular-se ao conflito social. A questão do trabalho tem, assim, um papel fundamental, porque se o movimento feminista vem se tornando algo massivo na rua, alcançando ir além dos lugares onde normalmente se fala de feminismo, é porque justamente começar a pensar sobre a questão da violência. A primeira coisa que o feminismo pensa quando sai às ruas é “por que eles estão nos matando?”, uma questão inclusive anterior à sobre porque nos exploram. Mas o movimento imediatamente subsequente é perguntar-nos sobre a forma como ligamos essa violência que hoje ataca principalmente os corpos de mulheres, lésbicas, trans e travestis, com violências relacionadas ao trabalho, violências institucionais, enfim, diferentes formas de exploração. E isso nos leva a repensar qual é o trabalho que as mulheres fazem e o que fazemos com corpos feminizados, migrantes e travestis.

Assim, somos obrigadas a repensar o trabalho de maneira muito radical, somos obrigadas a mapear o trabalho em uma chave feminista. Isto é muito importante porque, historicamente, o trabalho das mulheres é um trabalho que não é reconhecido, que não é pago, não é remunerado, é invisível. E isso nos permite uma conexão com formas de trabalho como a economia popular, porque elas têm as características mais próximas ou mais parecidas com o que é historicamente o trabalho feminizado, ou seja, realizado historicamente pelas mulheres.

Dessa maneira, o movimento feminista como movimento popular começa justamente a repensar a metodologia do combate ao desemprego e da greve. Nessa sequência ou genealogia que se havia feito antes, sobre o movimento de desempregados e a reinvenção estratégia do piquete como ferramenta [de luta], que já não está dentro da fábrica, mas vai cortar vias de comunicação*, o que o feminismo está tentando é reinventar a metodologia da greve, a metodologia de combate ao desemprego, porque as primeiros companheiras que dizem que querem parar são aquelas que supostamente não podem parar. Várias companheiras com quem temos coordenado estas iniciativas dizíam: “Bem, mas seu faço greve hoje, hoje eu não como”, ou “como posso parar se isso significa deixar de alimentar uma família do bairro”, ou “como eu posso parar se meu sindicato não me dá permissão para parar”. Portanto, a questão era: O que significa fazer greve quando esse instrumento não está disponível para essas formas de trabalho, para essas situações de trabalho muitas vezes informais, não remuneradas e não reconhecidas como trabalho?

Nesse sentido, o movimento feminista produz o redimensionamento do próprio conceito de trabalho, e, portanto, a reabertura da questão de quem é a classe trabalhadora hoje, quem a compõe, e que tipo de trabalho essa classe, a que chamamos de trabalhadora, vem desempenhando. O que o movimento feminista faz é mostrar que trabalhador e trabalhadora não são apenas aqueles e aquelas que ganham salários e, nesse sentido, desobedece a ideia de que os salários marcam a hierarquia entre ocupados e desocupados, entre empregadas e desempregadas, porque, do ponto de vista do capital, as mulheres foram historicamente consideras desempregadas ou trabalhadoras de segunda ordem, trabalhadoras inferiores. Ou seja, se não tomarmos a ideia de salário como a única definição e a única medida de trabalho, o que podemos descobrir é uma evidente afinidade entre o movimento feminista e a economia popular, por exemplo.

Mas também o que o movimento fez é uma aliança com as trabalhadoras assalariadas, com as trabalhadoras dos sindicatos. Parece-me que existe um tipo de triângulo que tem a ver com como interpelar as camaradas sindicais, especialmente as mais jovens, que estão fazendo lutas internas muito importantes e que querem discutir como se combina, por exemplo, uma paridade formal com uma rua paritária ou paritária social. Ou seja, se começa a mapear de outra maneira as alianças entre mulheres “ocupadas” e “desempregadas”, aparece outro ponto de vista.

Nesse sentido, estou interessada em enfatizar a desobediência à autoridade que o capital arroga para si de definir o que é trabalho. Isso tem a ver com as lutas históricas das mulheres para discutir o próprio conceito de produtividade. Quando lançamos o slogan “todas somos trabalhadoras”, tentamos dar conta dessa multiplicidade de trabalhos, apontando para as formas de produção de valor que não são reconhecidas embora envolvam as maiorias, ou são reconhecidas de maneira sempre inferiorizadas, em termos hierárquicos, sempre para baixo.

Também encontramos no movimento feminista uma ideia que diz: “há exploração, mesmo que não haja salário”, e isso abre a possibilidade de pensar nas formas atuais de exploração que não passam necessariamente pela mediação do salário. Por exemplo, a exploração financeira, que hoje extrai valor e explora muitos companheiros e companheiras, que não estão necessariamente inscritas no mundo do salário, através do endividamento maciço. Se não levarmos em conta essas realidades, então não percebemos exatamente como o ajuste está sendo financiado pelas economias domésticas: o aumento das tarifas e a diminuição do nível da dieta básica.

É por isso que do movimento Ni Una Menos também lançamos a campanha “Vivas, livres e sem dívidas nos queremos “. Essa ideia de que queremos sair da dívida foi tomada por todos os sindicatos em 4 de junho como o slogan da manifestação. Isso nos permitiu vincular a discussão da dívida pública do Fundo Monetário Internacional com as formas de endividamento privado e endividamento interno, e enfatizar o modo como a dívida impacta na perda da autonomia das mulheres, isto é, quando as mulheres querem dizer não e isso já não se torna possível porque uma trama de violência nos aprisiona em lugares de violência. O desafio é repensar o que dizemos quando dizemos que somos explorados, de que maneira estamos sendo exploradas e em que sentido o critério da exploração continua sendo um vetor de transversalidade na formação da classe trabalhadora.

Mais um ponto para terminar: Temos visto manifestações massivas do feminismo, e quero sublinhar a palavra massivo, enorme, porque a quantidade de mobilizações e o número de pessoas na rua são um fato qualitativo e quantitativo, que chama a atenção em todo o mundo, e foi confirmado na coordenação internacional de greves feministas. Mas o que não se vê tanto é como esses cenários de transversalidade foram sendo construídos de uma forma que nos permite repensar a relação orgânica de violência entre capital e acumulação. Hoje estamos redescobrindo o que significa acumulação de capital e quais são as formas de violência que o modo atual de acumulação necessita [para sua reprodução]. E o que vemos é que, em certos momentos históricos, quando precisamente as formas de exploração estão sendo redefinidas, a própria violência se torna uma força produtiva. O feminismo era, até poucos anos atrás, uma linguagem de alguns, uma linguagem que produzia preconceito em alguns lugares, e acredito que, a partir desses diagnósticos feministas de conflito social, o feminismo se tornou uma ferramenta de luta, um método para comunicar realidades e situações muito diferentes. Insisto, hoje o feminismo está sendo a linguagem e a caixa de ressonância de uma ampla conflitualidade social que está pensando a transversalidade de maneira inédita.

* N.T. Em espanhol: “…vías de comunicación”, optei por manter uma tradução literal, poruqe a expressão, em português, pode ser lida a partir de uma ambiguidade prolífica em relação ao que a autora menciona. Nesse caso, podemos ampliar o significado de comunicação para referir-nos ao esforço de transmitir ideias, informação e dados ou, ainda, à infraestrutura de interligação entre os territórios, tais como rodovias, estradas. No neoliberalismo contemporâneo, ambos aspectos são fundamentais para compreender as suas formas de funcionamento e as violências gerados no âmbito da acumulação.

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