Verónica Gago: A Internacional Feminista: Apropriar e transbordar a greve

Por Verónica Gago (Ni Una Menos, Argentina)

Publicado originalmente em “Power Upside Down: Women’s Global Strike”, Spring Journal 2018, Transnational Social Strike Platform (https://www.transnational-strike.info).

Tradução de Tatiana Oliveira

27.03.2018

 

Em 8 de março de 2017, nos articulamos entre mais de cinquenta países, aproveitando o impulso daquilo que vimos construindo desde a greve em 19 de outubro de 2016. Em 2018, a greve internacional de mulheres se tornou novamente um marco para assembleias em muitos bairros e cidades, para reuniões em sindicatos e escolas, para encontros em fábricas e espaços comunitários.

A greve expressou, mais uma vez, aqui e agora, um horizonte organizacional construído a partir de baixo: como uma ação que revitalizou o movimento amplo de mulheres, incluindo mulheres trans, lésbicas, e travestis; e que não para de crescer, expandir e se diversificar.

Nesse sentido, tornou-se fundamental pensar na greve como um processo e não como um evento. O tempo entre uma “data” e outra “data” não está vazio.

Na América Latina e no Caribe, a força da greve é sempre uma combinação de luto e luta: Em março, comemoramos um novo aniversário do assassinato de Berta Cáceres, que segue viva ainda hoje, presente nas lutas contra projetos neoextrativistas, da mesma forma que no caso das meninas que morreram, no 8 de março de 2017, num orfanato na Guatemala.

Ao transformar o 8 de março num dia de greve, nós trazemos de volta a sua história como parte das lutas da classe trabalhadora, e apoiamos trabalhadoras têxteis de todas as eras,  com a gestação de uma memória insurgente tecidas a partir de resistências diárias.

Ao fazer isto desde a América Latina, expandimos os significados da greve para incluir uma multiplicidade de tarefas e geografias que, em geral, permanecem na periferia da imaginação do trabalhador.

E o mais importante: Conseguimos relacionar a violência contra o corpo das mulheres e os corpos feminizados a conflitos territoriais concretos: lutas por habitação e contra a expansão do extrativismo pela despossessão de terras; lutas contra a criminalização das economias populares e migrantes; lutas contra as políticas de ajuste estrutural e a financeirização de pobreza; lutas contra a ilegalidade (uma interdição classista) do aborto.

Aqui, eu quero desenvolver alguns pontos sobre como, através da greve, revolucionamos nossas práticas como movimento feminista, ao mesmo tempo que revolucionamos a ferramenta da própria greve, uma ferramenta tradicionalmente associada ao mundo estreito do masculino e da mão-de-obra assalariada.

Quando a greve deixa de ser uma prerrogativa exclusiva dos sindicatos, ela deixa de ser uma decisão tomada de cima e, portanto, deixa de ser uma ordem concebida a partir dos comandos de obediência e adesão.

A greve apropriada pelo movimento das mulheres é, literalmente, um transbordamento: Deve levar em consideração as realidades múltiplas do trabalho que escapam às fronteiras do trabalho salariado e sindicalizado, que questiona os limites entre trabalho produtivo e reprodutivo, formal e informal, tarefas remuneradas e gratuitas, entre trabalhadores migrantes e nacionais, entre empregados e o desempregado.

A greve assumida pelo movimento das mulheres tem como alvo direto um elemento central do sistema capitalista: a divisão sexual e colonial do trabalho.

***

Ao mesmo tempo, abre-se uma pergunta de pesquisa concreta e situada: o que significa “parar” no contexto de cada realidade diversa, levando a sério a singularidade e a complexidade de cada experiência vital do trabalho?

Como se dá essa redefinição e expansão das classes trabalhadoras interligadas com as diferenças que fazem do mapa do trabalho algo radicalmente heterogêneo e segmentado?

Como elaborar um plano de ação comum em face da multiplicidade que desafia a própria ideia da acumulação de forças?

As respostas a essas questões podem ter uma primeira fase que consiste em explicar por que uma greve não pode ser levada a cabo no ambiente doméstico ou pela autônoma que vende os seus produtos na rua, ou por uma mulher encarcerada ou por uma trabalhadora agrícola, pela free lancer ou pelas trabalhadoras migrantes (identificando-nos como aquelas mulheres que “não podem” parar).

Ainda, a questão se mostra imediatamente com outra potência: partindo das experiências mencionadas, a greve exige que se ressignifique e se expanda o que permanece em suspenso, o que está bloqueado e o que é desafiado quando ela passa a acomodar novas realidades, ampliando o campo social em que está inscrita e onde produz efeitos.

Uma questão que foi feita há anos atrás pelo coletivo madrileno Precarias a la Deriva ressoa em nós: qual é a sua greve? Agora, essa pergunta é conjugada em escala massiva e radicalizada diante de uma ofensiva da violência machista, que, por sua vez, nos convoca a um estado de assembleia e urgência.

Porque a greve nos permite politizar a violência contra as mulheres de forma a enfrentar o estado de vitimização e luto permanente ao qual eles (a mídia, instituições estaduais e muitas ONGs) querem nos aprisionar.

Quando se trata da violência contra as mulheres e os corpos feminizados, novas formas de exploração do trabalho, de violência econômica e financeira, de violência estatal, de violência política, bem como múltiplas formas de despossessão se manifestam e se entrelaçam.

Nesse sentido, a greve põe em prática a interseccionalidade das lutas e sua conexão transnacional e o faz isso englobando uma dimensão classista: Para além da identidade e do multiculturalismo, ela é capaz de conectar a violência contra as mulheres e os corpos feminizados a formas de exploração e extração de valor, à violência policial, e à ofensiva corporativa contra os bens comuns da natureza cartografando o conflito social na prática.

Falar e agenciar a greve nos situa como sujeitas políticas ativas e não como meras vítimas a ser reparadas e/ou resgatadas (geralmente pelo estado). E é devido a essa ampliação da ferramenta da greve que o seu significado e a sua eficácia se multiplicam.

Portanto, os feminismos populares, indígenas, comunitários, periféricos e favelados da América Latina, que desliberalizam as políticas do reconhecimento, não estão interessados em cotas e desconfiam da armadilha identitária – primeiro plano de uma existência precária como condição comum, mas que se torna singular por meio de conflitos concretos.

O horizonte organizacional da greve reposiciona dimensões de classe, da luta anti-colonial e do popular no feminismo de forma criativa e desafiadora, porque não fornece uma ferramenta estática, pronta para usar, mas, ao invés disso, descobre um instrumento que deve ser inventado no interior do processo organizacional, e que, ao mesmo tempo, permite entender por que mulheres e corpos feminizados são constituídos como uma chave para a exploração capitalista, particularmente neste momento de hegemonia financeira.
***
Com esse intuito, estamos mapeando as formas através das quais produzimos valor, sejam elas reconhecidas e remuneradas ou não, a fim de produzir uma imagem coletiva e diversa do que chamamos trabalho. A greve das mulheres desafia assim as bordas do trabalho e, desse modo, produz um terreno de radicalização que interpela outros movimentos, outras práticas, e outras experiências.

É por isso que #ParamosTodas.

 

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