Antonio Casilli: ‘Os trabalhadores são o coração do algoritmo’

Por Antonio Casilli, para Il Manifesto // Tradução de Maikel da Silveira e Vítor Mussa

20.12.2017

Antonio Casilli, professor da Télécom ParisTech, é considerado um dos grandes experts no capitalismo das plataformas digitais. Ele é conhecido por sua pesquisa pioneira em “trabalho digital”, na qual refuta o senso comum apocalíptico que declara o fim do trabalho em decorrência da automação.

“Somos nós que fazemos os robôs com nosso trabalho,” ele diz. “Nós criamos os critérios segundo os quais eles operam. E então os ensinamos como aprender para melhorar. O problema não é que os robôs estejam roubando nosso trabalho, mas que nós continuamos a trabalhar mais e mais, e as plataformas estejam fragmentando e tornando invisível o trabalho necessário para fazer os algoritmos funcionarem.”

***

Na Itália tem havido uma grande discussão em torno das demissões de dois trabalhadores da IKEA, Marica, em Corsico, e Claudio, em Bari. Eles foram demitidos porque suas vidas não se adequavam ao algoritmo que gere a força de trabalho. Estamos voltando ao século XIX?

O capitalismo das plataformas digitais torna a disciplina laboral mais rígida, na medida em que impõe métricas e avaliações aparentemente “científicas”, as quais se assemelham à antiga manufatura industrial. A diferença central é que os trabalhadores, em troca de sua submissão à disciplina, não estão recebendo a seguridade social e a representação política que eles obtiveram antes por sua subordinação. Esse novo taylorismo tem todas as desvantagens e nenhum dos antigos benefícios. Os trabalhadores são pegos numa contradição nos termos: são subordinados e precários ao mesmo tempo.

Após a greve da Amazon em Piacenza, você advertiu os sindicados de que eles deveriam prestar atenção à política de dados, não apenas à política trabalhista. O que isso significa?

Em Piacenza, apenas a parte aparente do iceberg foi vista. Aquela foi uma greve em um espaço físico, por melhores condições de trabalho e em relação com os ativos tangíveis. Tem toda uma outra parte da Amazon que tem se engajado por anos nessa luta. Estou pensando nos micro-trabalhadores [micro-jobbers] da Amazon Mechanical Turk, um sistema de criação e treinamento de inteligência artificial que é alimentado por micro-trabalhadores, pessoas que recebem uma fração, uns poucos centavos, por tarefas de gerenciamento de dados, textos e imagens. Esses trabalhadores precisam se organizar por uma melhor compensação e condições de trabalho mais humanas. Nesse caso, os sindicatos precisam recuperar terreno, porque os “Turkers” realizam tarefas que são muito pequenas para serem levadas em conta por eles.

Os sindicatos estão fazendo isso?

Sim, ainda que no momento existam várias iniciativas funcionando em escala nacional. Na Alemanha, os metalúrgicos da IgMetal têm oferecido uma plataforma para as demandas desses trabalhadores: FairCrowdWork [algo como “trabalho justo para a multidão”]. Na França, a CGT criou o Syndicoop, que ajuda os sindicalistas a organizar os empregados em torno de uma campanha. Na Bélgica, há o SMart: não um sindicato, mas uma cooperativa que trabalha com trabalhadores freelance e também com entregadores, motoboys [“ryders”]. Está ocorrendo um processo no qual os sindicatos clássicos estão tentando se “plataformizar”, enquanto as cooperativas desenvolvem serviços de base mutualista para os trabalhadores nas plataformas.

Na luta dos motoboys italianos, surgiu a demanda de que eles tivessem o mesmo tipo de contrato dos trabalhadores de logística. Acontece o mesmo na França e em outros países?

Na economia sob demanda, os serviços baseados em plataformas em tempo real e produtos são foco de uma das maiores disputas legais e políticas relativas à contratação dos trabalhadores. Até o momento, o objetivo tem sido regularizar suas posições num contrato comum a todo o setor, que pudesse ser aplicado à área coberta pela plataforma. No caso do Uber, nos Estados Unidos, na Europa e na Coréia do Sul, as lutas trabalhistas têm convergido para a reivindicação de reconhecimento dos profissionais como trabalhadores do setor de transporte público. No caso da Amazon, os trabalhadores estão buscando a aplicação de um contrato equivalente ao dos trabalhadores postais. E o plano de ação ainda precisa ser ampliado.

Ampliado como?

Pelo reconhecimento de todos os micro-trabalhos feitos pelos “trabalhadores do clique,” mesmo aqueles que pagam poucos centavos por fração de trabalho para a conclusão de tarefas como gerenciamento de dados, imagens ou textos. O trabalho deles é útil no processo de aprendizado das máquinas, no processo de ensinar a máquina como aprender e criar Inteligência Artificial.

Como esse objetivo pode ser alcançado?

Tudo está ligado à quantidade de informação produzida e a como e em que extensão as plataformas estão tirando vantagem dessa produção de dados. O Uber leva entre 20% e 40% de cada transação que acontece em sua plataforma, e está completamente ciente do valor que está sendo produzido. Parte da riqueza produzida pode ser redistribuída entre os trabalhadores das plataformas. Ainda que isso não venha a ser um salário, uma tal redistribuição seria mais equânime que a situação atual.

Quais são os outros exemplos de micro-trabalho?

Existem muitos. É um mercado global que contabiliza pelo menos 100 milhões de trabalhadores. Na China, na Índia, nas Filipinas, na Indonésia existem plataformas e serviços pouco conhecidos na Europa. Esses trabalhadores realizam um número vasto de trabalhos que permitem o bom funcionamento das economias digitais do Ocidente. Nesses países, você pode encontrar os avaliadores [raters] do motor de busca do Google. São os trabalhadores que verificam se os resultados de uma busca são apropriados e corrigem o alcance dos resultados ajustando o algoritmo. São também os moderadores de conteúdo do Facebook e do Youtube, que passam seus dias julgando se um vídeo ou foto em particular respeita os termos e condições da plataforma. Eles ensinam aos algoritmos que fazem o filtro quais os conteúdos que devem ser censurados. Nós também podemos mencionar os “trabalhadores de clique” que estão compartilhando, “curtindo” e promovendo anúncios ou vídeos de celebridades, trabalho pelo qual recebem menos de um centavo por clique. Essas pessoas são o verdadeiro combustível do marketing viral, esse que dá vida às marcas famosas nas redes sociais.

A economia “sob demanda” é também uma economia da reputação, e sobretudo uma economia da atenção, onde a figura do consumidor é central. Como os trabalhadores podem envolver os consumidores em suas reivindicações?

Em primeiro lugar, reconhecendo que os consumidores desempenham o mesmo tipo de trabalho que o entregador ou o trabalhador micro-tarefa da Amazon Mechanical Turk.

Que trabalho os consumidores desempenham?

Eles também produzem dados. Os dados que eles produzem são utilizados para treinar a inteligência artificial. O consumidor produz uma massa crítica de trocas e transações que permite às plataformas existirem no mercado. Um consumidor é uma parte ativa e crucial na existência do algoritmo. Diariamente, eles desempenham uma quantidade imensa de ações produtivas, as quais se assemelham àquelas dos trabalhadores digitais. Mesmo os usuários do Youtube estão fazendo moderação dos vídeos de graça quando denunciam aqueles inapropriados. Qualquer um que utilize o Google estará treinando o algoritmo para aprender quais são os termos mais frequentemente usados com base nas palavras inseridas, por nós e pelos outros. O consumidor é um produtor. As fronteiras entre os atores econômicos estão desaparecendo, ao ponto de podermos dizer que quando uma plataforma não quer pagar pelo seu trabalho, ela o chama de “consumidor”. Se quisesse pagar (ao menos um pouco), ela o chamaria de trabalhador por tarefa ou micro-trabalhador.

Você falou em “trabalho livre”¹. Que papel ele desempenha na economia digital?

Esse “trabalho livre” já foi definido por Tiziana Terranova há 20 anos. Mesmo então, estar online era um trabalho, porque na época se produzia conteúdo para websites que eram chamados de “portais”. Ao longo da última década, essa ideia de trabalho livre mudou, conforme fomos percebendo que as plataformas não estavam apenas comprando e vendendo nosso conteúdo – mais importante, eles estavam comprando e vendendo nossos dados e informações pessoais: de quais marcas gostamos, ou que tipo de música costumamos ouvir; ou onde estamos, usando o GPS. O trabalho livre do usuário de internet não é um trabalho criativo, mas um trabalho que deve ser feito sem que se perceba, e de maneira pouco satisfatória, uma vez que é invisível. Como tal, é alienante na medida em que não temos consciência de que tipo de dado é útil nem de como esse dado será utilizado, seja quando resolvemos um “captcha” no Google ou quando adicionamos uma tag a uma imagem no Instagram.

Esses dados são usados pra quê?

São usados para produzir valor monetário para as grandes plataformas que compram e vendem informação, mas também para criar valor para a automação: para treinar a Inteligência Artificial, ensinar as caixas de diálogo, as chat boxes [ou chatbots] a se comunicar com humanos e à criar assistentes virtuais como a Siri, do iPhone, ou a Alexa, na Amazon, que falam com a gente e nos ajudam a tomar decisões, ou mesmo as tomam em nosso lugar.

Então, o trabalho digital é a característica comum entre as lutas dos entregadores de Foodora ou Deliveroo [semelhantes a serviços de entrega como SpoonRocket, por exemplo], aquelas dos trabalhadores da Amazon e nos países dos “trabalhadores do click”?

Sim, essas lutas se caracterizam por uma forma de trabalho diferente daquela a que nos acostumamos no último século. Hoje o trabalho digital é realizado através de plataformas digitais, que devem ser consideradas como um tipo de organização produtiva. Além disso, essas plataformas são ao mesmo tempo empresas e mercados. A Amazon é uma empresa mais tradicional, com uma cultura brutal de disciplina do trabalho, como podemos ver, por exemplo, em seus armazéns, mas também em seus escritórios. Mas a Amazon é também um mercado, uma loja baseada em um enorme catálogo de produtos e em uma forma menos conhecida de comércio: o de dados. O Deliveroo é a mesma coisa: é um empreendimento com empregados e recursos tangíveis e intangíveis e, ao mesmo tempo, é um mercado de trabalho que conecta clientes, tarefas produtivas e entregadores. Nesse caso, a plataforma usa um tipo de correspondência algorítmica, criando uma relação entre diferentes sujeitos. Para a Amazon, a relação é entre aqueles que produzem um item e aqueles que o compram.

Você é um defensor da renda básica universal. Como ela seria capaz de proteger a força de trabalho envolvida no trabalho digital, intermitente e precário como ele é?

Reconhecendo o “trabalho de dados” que atravessa as plataformas. Isso já foi argumentado por um relatório do Ministério das Finanças da França em 2013 e em outro da Fundação Rockefeller no ano passado. Os gigantes digitais não deveriam ser taxados com base em quantos data centers ou escritórios eles têm em um país, mas com base nos dados produzidos pelos usuários das plataformas. Se há 30 milhões de usuários da Google na Itália, é justo taxá-la com base nos lucros que eles obtiveram a partir das atividades desses usuários. Dessa forma, seria possível financiar uma renda básica decorrente do trabalho digital que cada um de nós realiza na internet ou nos aplicativos móveis que usamos.

***

[1] Nota da tradução: o termo “trabalho livre” procura conservar a ambiguidade do inglês “free labor”. A expressão remete tanto à liberdade quanto à gratuidade do trabalho realizado nas redes sociais digitais.

Antonio Casilli escreveu, entre outros livros, Qu’est-ce que le digital labor? (Editions de l’INA in 2015)  junto com Dominique Cardon; Stop Mobbing (DeriveApprodi, 2000); e La Fabbrica Libertina (Manifestolibri, 1997).

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