“Sísifo sou eu”, diz o precariado

Não é de hoje que interpretações sobre o mito de Sísifo são elaboradas relacionando-o ao mundo do trabalho.

Leitura bastante óbvia sobre a narrativa de um indivíduo que foi condenado pelos deuses e sua punição foi carregar uma pedra descomunal montanha acima. Ao final do esforço monstruoso, a pedra inelutavelmente rolava morro abaixo. E ele deveria repetir a jornada. Por toda eternidade.

“Sísifo sou eu”, dirá quem trabalha 8, 10 ou 12h por dia.

De fato a relação é óbvia. Mas o que pode ser interessante aqui é a interpretação que Albert Camus deu ao mito, num livro publicado em 1941.

Nessa obra o autor inicia seu texto colocando uma questão filosófica central: a do suicídio. Em seguida expõe sua argumentação e apresenta uma concepção bastante potente para entendermos as novas relações de trabalho: o absurdo.

Os intelectuais sequiosos por conceitos fazem logo careta, já que o absurdo é, antes de mais nada, um sentimento: o divórcio entre o indivíduo e o mundo em que vive, o que o impele a buscar a saída mais próxima.

Considerando o mito de Sísifo como metáfora para o trabalho, o mundo do trabalho promoveria essa ruptura entre a pessoas e sua vida? Nos realizamos no trabalho? Por que trabalhamos? Nossa vida é trabalhar? Somos felizes trabalhando?

Não há exageros nessas questões, se levarmos em conta o crescimento de distúrbios psicológicos oriundos do excesso de trabalho e de suas condições. Dêr um google na palavra “karoshi” para entender.

Mas trabalhamos. E trabalhamos com que finalidade? Pela renda? Para o lazer? Pelo prazer?

Esse mundo exige investimentos constante na formação: cursos de idiomas, de capacitação, graduação, pós graduação.

Esse mundo impõe o risco e a concorrência generalizada.

Esse mundo reconhece o individualismo, que impede a solidariedade.

Esse mundo submete: condições precárias, salários baixos, excessiva jornada de trabalho.

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Angústia, ansiedade, absurdo.

Nosso contexto exige a reflexão sobre os valores que orientam o trabalho, as relações trabalhistas, nossa vida nesse mundo do trabalho. Camus termina seu livro algo otimista: “é preciso imaginar Sísifo feliz”. No entanto, a única alegria possível seria a nietzschiana: a alegria trágica, que aponta para a superação e a transvaloração.

Portanto, para quê trabalhar? Vivemos ou apenas trabalhamos?

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